Exposição “Tambor” de Manuel Taraio

Exposição “Tambor” de Manuel Taraio Nascido em Coimbra em 1956, Manuel Taraio fez a sua formação em pintura pela Escola de Belas Artes de Bordéus, desenvolvendo o seu trabalho durante cerca de 3 décadas nas Caldas da Rainha, onde vivia e tinha atelier, até à sua morte há dez anos atrás. Esta exposição integra obras […]
Exposição Tambor de Manuel Taraio, GoCaldas Guia Turístico Caldas da Rainha
Exposição “Tambor” de Manuel Taraio, GoCaldas Guia Turístico Caldas da Rainha

Exposição “Tambor” de Manuel Taraio

Nascido em Coimbra em 1956, Manuel Taraio fez a sua formação em pintura pela Escola de Belas Artes de Bordéus, desenvolvendo o seu trabalho durante cerca de 3 décadas nas Caldas da Rainha, onde vivia e tinha atelier, até à sua morte há dez anos atrás. Esta exposição integra obras que foram selecionadas em coleções da sua família e que, compreendendo os principais momentos da sua produção artística, são, por outro lado, obras que resultam, por via dessa ligação, de uma escolha essencialmente afectiva e emocional. Não tem pretensões de ser retrospectiva nem sequer antológica, é antes o resultado de um gosto pessoal, se quiserem, do meu olhar sobre o seu. Bem diferente da que comissariei para a extinta Galeria Osíris, em 2007, realizada com trabalhos desse ano e que se intitulava “Páginas de Viagem”.

Uma das características que sempre me despertou atenção na sua pintura foi a enorme paixão pela sua história e por alguns dos seus grandes intérpretes. Na sua obra podemos perceber, de forma mais subtil ou declarada, referências a alguns dos grandes mestres da história da pintura. Velasquez é uma dessas referências fundamentais na sua obra, sendo que “Las Meninas” é um tema que abordou várias vezes. Mas também a arte dos primitivos flamengos e do proto-Ranascimento italiano é evocada em várias obras, embora aqui não de forma tão literal como em Velasquez, antes na construção da própria estrutura da composição. A acção desenvolve-se num primeiro plano, remetendo para um plano de fundo pequenos detalhes de narrativas complementares que acentuam a tridimensionalidade da composição e onde a linha do horizonte é concebida através do recurso a tonalidades mais claras e à utilização de velaturas, por oposição às cores fortes e empastamentos do plano da acção. Esses recursos “clássicos” são integrados com outros próprios da pintura moderna e contemporânea, como sejam a geometria, o gesto, a fragmentação da narrativa, a introdução de valores expressivos de um universo pessoal, criando um todo que se nos apresenta como um cosmos criativo único e irrepetível.

Não deixa de ser surpreendente a fase que antecedeu a sua morte, em que observamos uma transformação na sua pintura. A série Douro é notavelmente diferente das pinturas anteriores. A paleta deixa os tons ocres e vermelhos vibrantes para tons mais sombrios, feitos de verdes e cinzentos. A camada cromática é mais diluída, deixando amiúde espaços de tela em branco e o gesto é mais solto e livre, assumindo um valor expressivo fundamental. Não há primeiro plano de acção e não existem personagens, é o retrato de um rio majestoso numa paisagem avassaladora e despojada. Para além de especular se essa mudança teve um lado premonitório, dado o seu estado de saúde, interessa-me muito mais assinalar o facto de Manuel Taraio ter sido pintor até ao fim, procurando incansavelmente cumprir com a sua missão enquanto artista, trabalhando diariamente no atelier para criar as suas pinturas enquanto tal lhe fosse possível.

“Ele adorava esse tambor”, diz-me Celeste, quando lhe perguntei porque razão o tinha entre os seus objectos pessoais. Há objectos que nos causam um fascínio que é muitas vezes inexplicável. Este tambor tem um carácter festivo, evocado pelas cores garridas (que o pintor usou várias vezes nas suas composições) que é icónico da cultura popular que amiúde retratou. Mas também tem um lado solene e misterioso. O seu rufar tem um apelo a que não conseguimos permanecer indiferentes, ficando como que suspenso no tempo e no espaço, chamando-nos desde longe. É também assim a pintura de Manuel Taraio, popular e simultaneamente misteriosa, suspensa no tempo e no espaço, convocando-nos à sua presença para que a possamos olhar, permitindo-nos aceder a uma experiência sensorial, íntima e singular que as palavras não abarcam pois elas são fraco instrumento para exprimir valores que são de outra natureza.

José Antunes

Centro de Artes | CMCR

Em exposição até 10 de Fevereiro no Centro Cultural e Congressos.

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