Rota da arquitectura caldense

Uma montra de azulejos e muito mais!

Rota da arquitectura caldense!

A Rota da Arquitectura Caldense é um artigo sobre a arte da arquitectura caldense e que te vai dar a conhecer mais uma faceta da nossa cidade e que certamente vais ter em atenção depois de leres estas linhas, sendo também certo que vais querer vir às Caldas ver tudo isto com os teus próprios olhos.

Não causa dúvida a ninguém que Caldas da Rainha é uma pedra preciosa na sua generalidade e que resulta de pequenos outros tesouros que conjugados entre si, fazem da nossa terra um local muito singular, e possuidor de características e identidades muito próprias.

Rota da arquitectura caldense Praça 5 de Outubro, Caldas da Rainha, Gocaldas, o teu Guia Turístico Local

O Motivo

Uma dessas singularidades é uma arquitectura muito particular e fácil de identificar a olho nu e que certamente vais ter a oportunidade confirmar e concordar connosco quando nos visitares.

Quando aqui falamos em arquitectura estamos sobretudo a referir-nos à sua componente mais focada na decoração e ornamentação das fachadas e não para questões estruturais propriamente ditas, embora em alguns casos ambas coincidam.

Uma coisa é certa, quem passa por Caldas da Rainha de certeza que já reparou em vários edifícios cujas fachadas estão completa ou parcialmente cobertas de azulejos, sejam eles de uma ou mais cores, com ou sem relevos, maiores ou mais pequenos, com padrões figurativos ou abstractos.

Não podemos ainda assim identificar este estilo arquitectónico como um exclusivo das Caldas, havendo outros locais em Portugal que também possuem exemplares contemporâneos destes … embora sem aquele enquadramento especial que só a nossa cidade tem.

Por cá a construção adoptou este estilo preferencialmente durante cerca de 50 anos, os últimos 25 do século XIX e os primeiros 25 do século XX, criando assim um conjunto arquitectónico que se tornou também um dos vários elementos identitários da nossa terra.

A utilização em quantidade deste tipo de revestimento das fachadas justifica-se num período de expansão da cidade do centro histórico até à estação dos caminhos-de-ferro, inaugurada em 1887 fora do centro urbano das Caldas.

Esse distanciamento em relação à Estação motivou a abertura de novos arruamentos e quarteirões e a renovação de muitos edifícios, procurando responder a uma renovada e tendente a aumentar procura das termas, mas também a uma maior capacidade para fixar residentes por força do desenvolvimento local.

Se a esta campanha edificadora juntares o facto de Caldas ser também uma terra conhecida pela sua indústria cerâmica, produtora precisamente de azulejos, entre outras coisas, e se a essa feliz coincidência juntares ainda a presença de Rafael Bordalo Pinheiro e posteriormente a Fábrica Bordalo Pinheiro, fundada pelo filho, estão assim lançados os ingredientes para um conjunto património que não te vai deixar indiferente.

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A Montra

Em virtude de existirem diversos edifícios com revestimento azulejar como elemento decorativo principal, a nossa cidade é um autêntico mostruário das diversas utilizações do azulejo na arquitectura.

Os edifícios em causa têm, na sua grande maioria, dois ou três pisos, sendo o rés-do-chão por norma reservado para alojar estabelecimentos comerciais, situação que como terás oportunidade de confirmar se mantém fiel passados mais de 100 anos.

Outra particularidade está relacionada com a disponibilidade económica do proprietário do edifício, que influenciava o facto de a construção poder ter mais ou menos decoração, não apenas no tipo, cor e forma do azulejo, mas sobretudo na conjugação do azulejo com outros elementos que contribuem para enriquecer as fachadas dos edifícios.

Assim deves ter em atenção que em muitos casos para além dos azulejos há ainda frisos, cercaduras, barras a que se juntam ainda as cantarias de portas e janelas, que também variam de um edifício para os outros.

Em alguns casos há ainda as mansardas, uma criação do arquitecto francês François Mansart, e que correspondem a janelas colocadas nos telhados, e que permitiam aproveitar as águas furtadas dos edifícios, aumentando as divisões das casas.

Também de influência francesa é o uso do ferro forjado que se tornou elemento central na Art Nouveau em França e que em Portugal teve aqui na nossa terra um dos principais locais onde foi aplicado.

Há inclusivamente alguns edifícios que não tendo azulejos nas suas fachadas não deixam de merecer um olhar mais atento às suas decorações pela riqueza e variedade das mesmas.

Rota da arquitectura caldense

O Roteiro

Apresentado o enquadramento deste tesouro da nossa cidade, vamos agora deixar-te algumas dicas onde encontrar os mais belos exemplares da arquitectura caldense.

Em função da quantidade de exemplares as sugestões que aqui te apresentamos são apenas uma amostra do que podes encontrar.

Simultaneamente são mais uma forma de percorreres a nossa cidade e contactares com a nossa história, podendo intercalar este roteiro com outras sugestões de passeios e roteiros que te propomos.

O circuito por ruas, praças, largos que te sugerimos é o seguinte:

Começa pela Rua de Camões, junto ao Parque D. Carlos I e na qual deves ter em atenção os edifícios com os números 19 (com a inscrição “18JR98”) e 41-47 (Pastelaria Machado), onde para além do azulejo os elementos centrais são as mansardas e o ferro forjados nas janelas. No caso do número 41-47 os azulejos são atribuídos a Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, sendo os mesmos do início do século XX.

Tens ainda o número 57 (Museu do Ciclismo), que mantendo o azulejo como elemento central tem como complemento decorativo a pedra e pormenores artísticos nas cantarias das portas e janelas.

Museu do Ciclismo, Caldas da Rainha, Gocaldas, o teu Guia Turístico Local

A fachada do 57 tem a particularidade de os frisos renascentistas serem da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e ter azulejos na fachada produzidos na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha entre 1884 e 1889 e onde Rafael Bordalo Pinheiro era diretor artístico.

Percorre a totalidade da Rua Camões até ao Hospital Termal, pelo caminho dá uma vista de olhos no número 85, que ainda que não tenha azulejos é um edifício que se destaca pela sua decoração de influência mourisca.

Deves depois subir até ao Largo Dr. José Barbosa e prestar atenção aos números 14 e 19, dois exemplares muito diferentes mas com características em comum, a utilização do azulejo no revestimento da fachada e o uso do ferro nas varandas. Os azulejos do 14 são da última década do século XIX e os do 19 da primeira do século XX.

Dirige-te em seguida para a Praça da República (Praça da Fruta) e onde o foco devem ser os números 5-9 (Nova Padaria Tabuense), 14-19 (Antiga Zaira), 45-47 (Bocage), 80-84 (Clínica da Praça/Viva Pharma) e 94 (Joaquim Baptista Lda.). Destes merece destaque o número 5-9 por ser criação de Rafael Bordalo Pinheiro entre 1889-1905, o 14-19 por ser produção da Fábrica de Sacavém da última década do século XIX, o 45-47 por ser o mais antigo conhecido, remontando ao ano de 1861, o 80-84 pela utilização de azulejo com padrão e o 94 por utilizar um padrão na colocação dos azulejos que vais encontrar noutros locais com outras cores, e por ter um friso no topo da fachada por cima das janelas laterais.

Arquitectura nas Caldas da Rainha, Praça da Fruta, Gocaldas, o teu Guia Turístico Local

Ainda na Praça da República deves ter em atenção ao número 19, edifício da Junta de freguesia, construído no século XVIII e ao número 110 (Millennium), inaugurado em 1911 como a sucursal caldenses dos Armazéns do Chiado.

Da Praça da República deves descer para a Rua General Queiroz e começar por contemplar os números 77-85 que são três edifícios seguidos com revestimentos das suas fachadas em azulejo de padrão, mas que utilizam também o ferro e no caso do número 77 há ainda uma mansarda e uma balaustrada no topo da fachada.

Ainda na Rua General Queiroz, continuando a descer, deves ainda parar nos números, 50 (Branco), 46 (Verde) e 22 (Verde em muito mau estado). Destacam-se pela utilização de azulejo, no caso do 50 no friso superior da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, no caso do 46 no revestimento da fachada com azulejos da Fábrica de Sacavém e no 22 com revestimento de azulejos produzidos da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

Continua a descer a Rua General Queiroz até à Rainha e daí segue para a Calçada 5 de Outubro (a segunda saída da rotunda) que te levará à Praça 5 de Outubro e onde são imperdíveis os números 40 (Sabores d’Itália), 46 (Azul) e 48 (Tecidos).

O número 40 destaca-se pelo friso Arte Nova, bem como a conjugação do friso com o revestimento azulejar em vermelho e a balaustrada em frente da mansarda, num edifício da primeira década do século XX.

Por sua vez o número 46 possui também um friso e azulejos com padrões Arte Nova da Fábrica de Sacavém, do segunda década do século XX,

O vizinho 48 utiliza o revestimento azulejar igual ao do número 22 da Rua General Queiroz, produção da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha de 1884-1889.

 

Ao lado deste último, mas já pertencente à Travessa 5 de Outubro, o número 24, (antigo Luís do Talho) também merece um olhar atento, sobretudo o friso superior da Fábrica de Sacavém, do primeiro quartel do século XX.

Percorre essa Travessa 5 de Outubro e quando chegares à Rua Heróis da Grande Guerra vira à esquerda e procuras o número 79 onde poderás ver mais um exemplo que utiliza um padrão semelhante de azulejos já vistos noutros edifícios mas com cores diferentes.

Vira novamente à esquerda para a Rua Henrique Sales e podes contemplar desde logo o número 2 e a sua fachada de rés-do-chão em tons verdes mantendo um padrão muito semelhante ao edifício que acabaste de ver.

No cruzamento de Rua Henrique Sales com a Rua do Coronel Andrada Mendonça tens de observar o número 16 (Ourivesaria) com uma belíssima fachada de 1890 coberta de azulejos de padrão azul.

Continua a percorrer a Rua do Coronel Andrada Mendonça e chegarás ao cruzamento desta com a Rua Dr. Miguel Bombarda, aquele que é a artéria da cidade com mais exemplares de edifício com fachadas em azulejo.

Deves reter a tua atenção aos números 32-36 (Benetton), 35-39 (Antiga Moveis Pardal), 41-43 (Antiga Vidreira Simões), 45-47 (Vermelho) e 53-57 (em mau estado de conservação).

Rota da Arquitectura Caldas da Rainha, Gocaldas, o teu Guia Turístico Local

No caso do 32-36 destaca-se o revestimento em azulejo de padrão da Fábrica de Sacavém e as barras laterais das portas com azulejos da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

Já o 35-39 utiliza azulejos de padrão em tom verde e o ferro nas varandas, característica que o vizinho 41-43 também possui, embora neste caso conjugado com azulejos de padrão azul, branco e vermelho, e possuindo ainda uma balaustrada no topo e uma mansarda.

No caso do 45-47 foi privilegiado o revestimento azulejar em tom vermelho com a utilização de ferro nas varandas e portas, bem como alguns adornos nas cantarias de portas e janelas.

Por fim, no 53-57 o destaque não é a fachada coberta de azulejos mas toda a decoração do edifício, pese embora o mau estado de conservação do mesmo e onde merecem destaque os frisos em azulejo, o uso do ferro nas varandas e portas a ainda alguns pormenores nas cantarias de portas e janelas.

Com excepção do 41-43, os restantes (35-39, 45-47 e 53-57) fogem à regas da utilização do rés-do-chão como espaço comercial, não sendo prédios de rendimento.

Uma vez terminada a Rua Miguel Bombarda deves percorre-la em sentido contrário até ao seu final, cruzamento com a Rua Heróis da Grande Guerra, na qual deves reentrar e virar à esquerda procurando os números 86 (Perfumaria) e 90-96, ambos merecendo destaque pela beleza da decoração das suas fachadas, pese embora em qualquer dos casos sem o uso de azulejos, salientando-se os uso do ferro e as cantarias de portas e janelas.

Neste último deves aproveitar para virar à direita para a Rua Alexandre Herculano (ou Rua do Jardim) e procurar o número 53 para verem mais um exemplar de utilização de azulejo de padrão para revestimento da fachada, no caso da Fábrica de Sacavém.

Voltando depois um pouco atrás para a Rua Leão Azedo onde o destaque são os números 22-26 (Vermelhos) e onde o destaque é a utilização do azulejo de tom vermelho.

Em frente deste, na Rua Leão Azedo, deves também ter em linha de conta o Terminal Rodoviário cujo edifício é por si só um motivo de atracão e cujo projecto é de Ernesto Korrodi, de meados do século XX.

Nesse cruzamento deves seguir para cima pela Rua Coronel Soeiro de Brito até ao cruzamento com a Rua Capitão Filipe de Sousa, o primeiro cruzamento, e onde deves ter em atenção os números 78-84 (para a esquerda do cruzamento) e 52 (fachada só) e 22 (estreito e Azul) (para a direita do cruzamento).

O 78-84 destaca-se pelo friso em azulejo no rés-do-chão e pelas decorações das cantarias de portas e janelas.

O número 52, que se trata de uma manutenção da fachada e reconstrução de interior do edifício é um dos melhores exemplos da nossa arquitectura, pois inclui o revestimento em azulejo, os frisos com motivos florais, em ambos os casos da Fábrica de Sacavém dos anos 20 do século XX, mas compreende ainda a utilização do ferro e a alguns pormenores nas cantarias de portas e janelas.

Mais à frente o número 22 é uma pequena obra-prima da última década do século XIX, que privilegia a utilização do azulejo de padrão a cantaria das portas e janelas e o ferro nas varandas.

Continua a percorrer a Rua Capitão Filipe de Sousa até chegares ao Largo Heróis de Naulila e onde deves ter em conta os dois edifícios verdes, números 5 e 5A (Thomaz dos Santos), em que o azulejo da primeira década do século XX é o elemento principal e, no caso do número 5ª é conjugado com o uso da pedra e com a cantaria nas janelas e portas.

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Ao lado deste, no número 17 (NovOptica) da Rua José Malhoa, possui no rés-do-chão revestimento azulejar da década de 1970 e da autoria de Ferreira da Silva, um dos maiores nomes da cerâmica das Caldas no século XX e XXI.

Um pouco mais à frente, no número 13 (Óptica Ramiro) da mesma Rua, podes encontrar painéis de azulejo de 1970, da autoria de Herculano Elias, outras das lendas da cerâmica caldense do Século XX e inícios do XXI.

Do outro lado da rua, no número 8 (Cabeleireiro Forma) outro edifício com revestimento azulejar verde e que contam com um friso, por cima da janela do primeiro andar, friso esse produzido na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha por Rafael Bordalo Pinheiro.

Recua um pouco e vira à esquerda para a Travessa da Cova do Onça e percorre-a até ao seu final até chegares à Rua Almirante Cândido dos Reis ou Rua das Montras e onde deves ter em atenção os números 31 (Foto Franco), o edifício que vês quando vens a descer a Travessa da Cova da Onça, onde podes encontrar revestimento azulejar de padrão azul de 1890 na primeiro andar com pormenores na cantaria das janelas, enquanto no rés-do-chão encontras azulejos da autoria de Ferreira da Silva.

Em frente desse o número 34 (Seasons Fashion) merece também olhar especial já que possui 6 frisos de azulejos da última década do século XIX, bem como decoração em pedra e ainda medalhões em ambos os cantos superiores do rés-do-chão respetivamente dedicados a Bernard Palissy (à esquerda) e Rafael Bordalo Pinheiro (à direita).

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No número 50-52 (A Romã), volta a ter destaque o revestimento de azulejo, no caso em tom acastanhado, com o uso do ferro nas janelas e as mansardas no topo.

O vizinho do lado, o número 54, destaca-se por sua vez pelo uso da pedra como elemento decorativo principal em detrimento do azulejo que tem uma aparição menor, mas não por isso menos interessante, no friso por cima das janelas do primeiro andar.

O vizinho da esquerda, o número 56, conta com revestimento azulejar da década de 60 do século XX no seu rés-do-chão, azulejos da autoria de Herculano Elias.

Em frente deste o número 45-51 (Monteiro Alcatifas), embora utilize o mesmo padrão de revestimento azulejar nos andares de cima, conseguem perceber-se algumas diferenças nos dois edifícios, nomeadamente com não existência de friso divisor entre andares no edifício da esquerda bem como a inexistência de janelas de sacada/varandas nesse mesmo edifício.

Ligeiramente mais abaixo, no número 98 (Pedemeia), encontras mais um exemplar da utilização do revestimento da fachada com azulejo de padrão, que é complementado com um friso no topo da Fábrica das Devesas da última década do século XIX

Para finalizar, nesse cruzamento com a Rua Heróis da Grande Guerra tens ainda o número 107-111 (Neck & Neck) que há semelhança do último edifício de que te falamos, apresenta a fachada revestida a azulejo de padrão, com destaque para o friso no topo de cor azul e com a inscrição do ano de 1891, sem esquecer a balaustrada no topo e o uso do ferro nas varandas e no topo das portas do rés-do-chão.

Como certamente concordarás não são poucos os locais onde existe artitectura nas Caldas, sendo certo que todos eles têm as suas singularidades muito próprias e que por isso não vais conseguir ver só alguns e uma vez iniciada a rota, não vais conseguir parar até ver o último edifício.

Temos até a certeza que vais reparar noutros edifícios não incluídos nesta rota e que nunca mais vais visitar as Caldas sem olhares para os variados edifícios que vais encontrar … vai uma aposta?

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BIBLIOGRAFIA:

Gouveia, Margarida (1993), Paredes de louça: azulejos de fachada das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha, Património Histórico-Grupo de estudos

Serra, João B. (1995), Introdução à História das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha, Património Histórico-Grupo de estudos